quarta-feira, 7 de junho de 2017

A minha homenagem a Pete Seeger, e à música Folk

Em 19 de Maio de 2014 escrevi no Facebook uma breve evocação de um dos mais acérrimos defensores da liberdade e da igualdade de direitos nos EUA, Pete Seeger, que com seu inseparável banjo cantou, declamou poesia, discursou e comocionou os que escutavam a sua mensagem humanista. Muitas vezes foi insultado, agredido e impedido de poder comunicar a simples mensagem de que todos os homens são iguais, qualquer que seja a sua raça, credo ou nacionalidade. Viveu mais de noventa anos, sempre insatisfeito com a falta de solidariedade e de compromisso global com a paz. Faleceu a 27 de Janeiro de 2014.
Transcrevo agora o que sobre ele escrevi no Facebook, para que fique eternamente lembrado no meu blogue.
Nas ocupações da vida, que nos absorvem a alma, deixei passar em claro a notícia da morte Pete Seeger, aquele que foi talvez o pai da música Folk americana. 
Acima de tudo, Pete Seeger foi um grande democrata e um incansável defensor dos direitos humanos. Lembro-me das suas pacíficas campanhas contra a guerra no Vietname e das repercussões que isso teve nos jovens europeus da minha geração.
Apesar da minha paixão por tudo o que é genuinamente português, confesso-me um admirador incondicional da musica Folk, sobretudo da música de Pete Seeger e dos acordes do seu Banjo, nomeadamente quando nele se fazem sentir as influências europeias do folclore irlandês e escocês. 
Quando eu nasci já Pete Seeger lutava há muito pelos direitos das minorias raciais nos EUA e pela implementação plena da democracia no seu país. Por isso foi preso, várias vezes, suscitando enorme escândalo no país que se considera o berço da democracia moderna. Usou a música Folk para divulgar a sua mensagem de liberdade e de fraternidade para toda a humanidade. Essa batalha não foi ainda ganha e Pete Seeger acabou por deixar este mundo, aos 94 anos de idade, na passado dia 27 de Janeiro, com o travo amargo de quem tinha ainda muito para fazer, muito para lutar e muito de bom para oferecer à humanidade.
Ao longo da vida coleccionou inúmeros êxitos, que lhe deram fama, glória e fumos de eternidade. De entre todas as suas canções, aqui vos deixo uma que foi um êxito na voz de Bob Dylan e de Joan Baez. O video que vamos ouvir foi feito muito próximo da sua morte, no meio das crianças que tanto amava, numa espécie de jamboree da juventude. A canção intitula-se "Forever Young" e, no fim, podem ainda ouvir os inconfundíveis acordes do seu tradicional Banjo. Desfrutem da belíssima mensagem filosófico-poética desta canção que, apesar da idade de Pete Seeger, consegue-se discernir na sua plenitude. Espero que se comovam (como eu me comovi) com esta simbiose entre a velhice e a juventude, numa esperançosa mistura da sabedoria com a inocência.

Aqui vos deixo o poema da autoria de Bob Dylan não sua versão original. Na sua singeleza é absolutamente magistral.


May God bless and keep you always
May your wishes all come true
And let others do for you
May you always do for others
And climb on every rung
May you build a ladder to the stars May you stay forever young.
May you always know the truth
May you grow up to be righteous May you grow up to be true And see the lights surrounding you
Forever young, forever young
May you always be courageous Stand upright and be strong And may you stay forever young. May you stay forever young.
When the winds of changes shift
May your hands always be busy May your feet always be swift May you have a strong foundation May your heart always be joyful
May you stay forever young.
May your song always be sung And may you stay forever young.
Forever young, forever young

https://youtu.be/Ezyd40kJFq0


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Uma figura do Iberismo, cônsul de Espanha em Faro

Panorâmica da antiga doca de Faro na década de vinte
Uma das figuras que permanece ignorada na cultura algarvia e até mesmo nas relações transfronteiriças luso-espanholas, é a de D. Álvaro Seminário, que nos princípios da sua carreira diplomática, precisamente em 1923-1924, exerceu na cidade de Faro as funções de Cônsul de Espanha. Durante essa curta passagem deixou no seio da elite farense um perfume de elegância, de donjuanismo, muito raro e invejável, numa sociedade ronceira e provinciana.
Em todo o caso, deixou sólidas amizades e uma grande admiração entre os mais recatados e ilustres farenses, para não falar já dos corações dardejados pelo traiçoeiro cupido, abandonados à pressa por uma retirada estratégica. 
Jardim Manuel Bivar e praça de táxis de Faro, anos vinte
Elegante e afável no trato, cativava facilmente amizades, até pela sua sólida cultura, aliás demonstrada no livro de memórias e sensações que publicou com o título de «España y Portugal - Incitaciones a una política de acercamiento espiritual», publicado pela famosa editora Espasa-Calpe, em 1940. Nesse livro deu relevo ao amor que sentia pelas duas pátrias que trazia no coração, advogando com sincera convicção a necessidade de estreitamento das relações políticas, económicas e culturais entre os dois países irmãos, dando como exemplo as opiniões de vários outros escritores, que haviam anteriormente sugerido um abatimento das fronteiras físicas em prol duma união intelectual da velha Ibéria. Essa ideia não era nova, pois já havia sido propalada nos anos setenta da centúria de Oitocentos, tendo então entre nós como principais defensores os mais conceituados intelectuais republicanos e socialistas, de entre os quais destaco Antero de Quental, Teófilo Braga, Júlio de Matos e Oliveira Martins.
Capa da obra de Álvaro Seminário
Na sociedade farense dos loucos anos vinte, Álvaro Seminário marcou posição de relevo, não só pela sua admirável educação como também pela sua cativante cavaqueira no Clube Farense, na Havaneza e nos cafés mais concorridos da cidade, onde fazia amigos com extrema facilidade. Pode mesmo dizer-se que foi um dos cônsules espanhóis que mais simpatias soube arrecadar na burguesa cidade de Faro.
Distinto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, não admira que fosse galardoado com numerosas condecorações, de entre as quais assume particular destaque a Comenda da Ordem de Cristo com que o governo português o soube premiar pela leal amizade que dedicou ao nosso país.
Álvaro Seminário Martinez, de seu nome completo, após uma brilhante carreira diplomática, retirou-se da política no pós-guerra, na qualidade de Ministro plenipotenciário de Espanha para a América Latina, vindo a falecer na sua residência em Madrid, a 30-12-1950.
Embora não tivesse ocupado o melhor do seu tempo na escrita, sei que da sua autoria se publicaram ainda os seguintes livros:
Cuadernos de Derecho Consular, 1932; El consul de España en América, 1935; El doctor James Brown Scott y los teólogos españoles de los siglos XVI y XVII, 1946 [conferencia pronunciada por Álvaro Seminario, Ministro Plenipotenciario, director de política de América].

domingo, 30 de abril de 2017

Frei António de Moncarapacho

Iluminura das Cantigas de Santa Maria
da autoria de Afonso X, o Sábio
Pelo nome presumo que este frade seria natural da aldeia de Moncarapacho. Não tenho a certeza da ordem a que pertencia, mas certamente era Franciscano da Província da Piedade, como acontecia à maioria dos religiosos provenientes das terras meridionais, isto é, situadas para além do rio Tejo. Já agora esclareço que a Ordem dos Frades Menores, também conhecida por Ordem de S. Francisco, ou simplesmente dos Franciscanos, foi fundada em 1209, em Assis, Itália, introduzindo-se em Portugal pouco depois, tendo como principal conversão a do nosso mais famoso taumaturgo Santo António de Lisboa. Em 1427 foi criada a Província de Portugal da Ordem Franciscana, mas daí até à sua extinção em 1834 passou por diversas cisões e dissidências, dispersando-se os seus milhares de religiosos em conventos e conventinhos espalhados por todo o país.
Mas tudo isto vinha a propósito de Frei António de Moncarapacho cuja existência ressaltou ao meu conhecimento através de uma notícia inserta na «Gazeta de Lisboa», onde consta que no dia 28 de Dezembro de 1828 o Corpo de Voluntários Realistas da Vila de Moura (comarca de Beja), em conjugação com a Câmara mandaram cantar um Te Deum na Igreja Matriz “em acção de Graças ao Todo Poderoso pelo grande benefício que a sua prodigiosa mão liberalizou á nação portugueza pelas completas melhoras de Sua Magestade”, tendo o padre Frei António de Moncarapacho nessa altura proferido um “elegante discurso”.(1)
Esta «acção de Graças pelas melhoras de Sua Magestade» respeita ao acidente que o Rei D. Miguel teve no dia 9 de Novembro de 1828, quando a galope num trem puxado por uma parelha de cavalos malhados caiu por uma ribanceira abaixo tendo uma das rodas passado por cima das pernas, de que resultou uma perigosa fractura. Diz-se que foi por esse facto que a partir de então os liberais, considerados como os principais inimigos do Trono e do Altar, passaram a ter o epíteto de "malhados". O país cobriu-se de pesar e de lamento pelo sucedido, a tal ponto que se fizeram novenas e promessas aos santos e oragos de maior devoção popular. A Igreja da Senhora da Rocha, na freguesia de Carnaxide, actual concelho de Oeiras, tinha fama de grandes milagres, razão pela qual o Rei com suas irmãs ali se dirigiu, em romaria popular. Diz-se que com fé e humildade implorou à Virgem uma cura rápida, o que de facto aconteceu. Por causa disso, o culto da S.ª da Rocha cresceu exponencialmente, tornando-se num símbolo do absolutismo. As modinhas do «Rei chegou» passaram a concluir-se na seguinte quadra:
Altar barroco de S.Francisco d'Assis
 na Igreja de que é patrono em Faro.
                               
                                D. Miguel é bonito,
                                É bonito e bem feito.
                               Quebrou as pernas,
                               Ficou sem defeito.

No Algarve até 1834, quando o primeiro governo liberal, pela mão do ministro Joaquim António Aguiar – que por isso ganhou o epíteto de “mata-frades – promulgou a lei da extinção dos conventos e das ordens religiosas, existiam nesta região dezasseis conventos e casas religiosas da Ordem Franciscana. Já agora acrescento que se distribuíam do seguinte modo: dois eram de frades Claustrais, estabelecidos em Tavira e Loulé; três eram de frades Observantes, em Tavira, Faro e Lagoa; sete eram de frades da “Mais Estrita Observância”, que se dispersavam desde o Cabo de São Vicente até Tavira; dois eram conventos femininos, um de Santa Clara, em Faro, e outro de freiras Concepcionistas Franciscanas em Loulé; por fim, há que registar ainda dois conventos do terceiro ramo da Ordem Franciscana, em Silves e em Monchique, que se dedicavam à instrução feminina. Foi aliás deste último que vieram as religiosas que tomaram conta, já no séc. XX, do Colégio de St.º António do Alto, em Faro, que ainda existe.
Resta-me acrescentar que sobre o Frei António de Moncarapacho nada mais conheço. Presumo que como miguelista deve ter sido alvo de perseguições políticas após a Convenção de Évora Monte. Talvez tenha então recolhido à protecção de alguma família de posses, ficando ignorado numa qualquer herdade desse imenso Alentejo.
________________________
(1) [«Gazeta de Lisboa», nº 2, de 2-1-1829, p. 8.]. 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Efemérides algarvias – dia 22 Abril


José Dias Sancho, escritor, e poeta
1898 – Nasce em São Brás de Alportel, freguesia do concelho de Faro, o escritor José Dias Sancho, um dos mais polémicos e geniais da década de vinte, no século passado, por ter visado com fortes críticas as consagradas obras de Júlio Dantas e de Albino Forjaz de Sampaio, na época verdadeiros príncipes da literatura portuguesa. Nos dois volumes da obra «Ídolos de Barro», amesquinha de forma injusta e desleal aqueles geniais literatos, numa estratégia cobarde e soez, muito comum entre os jovens, que por não serem conhecidos pretendiam concitar a atenção do público, dizendo mal dos escritores mais famosos do seu tempo. Essa estratégia resultou apenas em descrédito da sua própria obra, que não chegou longe, em parte porque não houve tempo para amadurecer, crescer e convencer a crítica. Com efeito, a vida de José Dias Sancho cessaria pouco depois, de forma abrupta e inesperada, ainda na flor da juventude. Um desfecho cruel para uma vida que se adivinhava plena de realizações e de sucesso. Acerca deste escritor sambrasense leia-se o capítulo correspondente à evocação da sua vida e obra no meu livro, Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, pp. 153-159.
José Joaquim Coelho de Carvalho
1911 – Estreia-se no Teatro Nacional a peça «A infelicidade Legal» do famoso escritor Coelho de Carvalho. Nascido em 1855, na cidade de Tavira, Joaquim José Coelho de Carvalho Júnior, foi uma das figuras mais ilustres da cultura e da política do seu tempo. Da sua vasta biografia destaco o facto de ter sido reitor da Universidade de Coimbra (1919-21), Presidente da Academia das Ciências, Cônsul de Portugal no Brasil, em Xangai, China, e aqui ao lado, em Huelva, na vizinha Andaluzia, que ele tanto amava. Foi também dramaturgo, poeta, escritor, cronista…, enfim uma infinidade de actividades de que não existe hoje nenhuma figura, no Algarve, que se lhe possa comparar. O mapa de Angola, na zona nordeste, é todo da sua autoria, cuja realização prática quase suscitou uma guerra da França e da Bélgica contra Portugal, porque o nosso Coelho de Carvalho fartou-se de lhes roubar território colonial… de uma forma legal. Morreu quase octogenário, em 18-07-1934, na sua residência, que constituía o edifício histórico do Forte de São João do Arade, em Ferragudo, por ele arrematado em hasta pública ao Ministério da Marinha. Anos antes, ainda na vigência da República, o velho "Castelão do Arade", como poeticamente o tratavam os amigos e admiradores, foi preso sob a acusação, real e verdadeira, de ter sido o autor material e o instigador político de uma revolução, realizada de forma pacífica e sem derramamento de sangue, através do «Diário da República»!!! O elenco político, nomeado e oficialmente publicado no órgão oficial do regime, ficou conhecido como o "governo dos poetas", a que alguns jornalistas bem humorados chamaram "ministros do reumático".

1980 – Fundou-se a Associação de Voleibol de Faro, modalidade que até então era quase em exclusivo da responsabilidade do desporto escolar, cuja orientação e prática competitiva dependeu durante muitos anos da antiga «Mocidade Portuguesa».

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Efemérides algarvias – dia 21 Abril


Gravura antiga, presumo que do sec. XVII ou
XVIII, representando a antiga cidade de Tavira
1539 – O rei D. João II, anuindo a um requerimento do povo de Tavira, proibiu os alcaides-mores de fazerem parte da governação daquela cidade, isto é da vereação ou de qualquer outro cargo autárquico. Determinava também que se elegessem dois representantes, dos mesteres (artesãos e comerciantes) ou dos mecânicos (mareantes, pescadores, oleiros, ferreiros, etc), para fazerem parte da vereação. O ojectivo era evitar a concentração do poder externo, dando representação às actividades económicas locais. Os produtores manuais e mecânicos representavam a burguesia tavirense, rivalizavam com os “ricos homens” ou “homens bons”, proprietários rurais e urbanos que desempenhavam normalmente a administração pública. O facto de serem sempre os mesmos, acabaria por dar origem à fidalguia dos concelhos, que era o nível mais baixo da nobreza. 
Rótulo turístico, para colar nas malas de viagem,
oferecido pelo Hotel Aliança, de Faro, aos seus clientes
1653 – A Rainha D.ª Luísa de Gusmão fez mercê da alcaidaria-mor da vila do Alvor (antigo concelho extinto por Pombal e suprimido por Passos Manuel, em 1836), ao Conde de Odemira, D. Francisco de Faro (apelido e não naturalidade). O interesse desta alcaidaria estava nas suas pingues salinas, cuja produção se escoava em grande parte na transformação do pescado das armações do atum e das xávegas da sardinha. Estas salinas foram tão cobiçadas que chegaram às mãos dos Távoras, recaindo depois na posse da coroa, pelas razões sobejamente conhecidas.
1894 – Morre em Faro o Barão das Pontes de Marxil. Já escrevi detalhadamente sobre ele no meu livro sobre a «História do Teatro Lethes». Não obstante, deixo aqui alguns elementos biográficos. 
Frontaria do Café Aliança, de Faro, estilo neo-clássico
Quando o Ministro do Reino (primeiro-ministro nos tempos modernos) Fontes Pereira de Mello, visitou o Algarve em 1874, agraciou como de costume as figuras que mais se distinguiram no desenvolvimento local por acções de benemerência e filantropia. Um deles, Francisco Pedro da Silva Soares, construiu à sua custa uma pequena ponte férrea, na sua propriedade do Marxil, para dar passagem à linha do caminho-de-ferro. O benefício público justificou a outorga do título de Barão da Ponte de Marxil. Este Francisco Soares, nascido em Faro em 1830, dedicou-se ao comércio acumulando avultados meios de fortuna que distribuiu em acções de altruísmo, nomeadamente através da fundação do Asilo da Infância Desvalida de Nossa Senhora do Pé da Cruz, para o sexo feminino, e o já desaparecido Teatro 1º de Dezembro, que ficava ali na esquina da Rua Rebelo da Silva, onde está hoje uma sapataria, e esteve até há pouco tempo, no 1º andar, a sede da Companhia de Pescarias do Algarve. Além de comerciante foi também vereador da Câmara de Faro, e procurador à Junta Geral do Distrito. Quando em 1850 o Algarve sofreu uma seca severa, suscitando uma fome generalizada, como todos os flagelos que isso comporta, Francisco Soares instituiu a suas expensas um sopa dos pobres, que durou mais de um ano. Politicamente seguiu o Partido Regenerador, promovendo e patrocinando várias festas locais, nomeadamente a visita do grande Fontes Pereira de Mello ao Algarve. 
Decoração interior do Café Aliança, com fotos e caricaturas
de grandes vultos da cultura algarvia frequentadores do Café
Teve distintos e notáveis descendentes, nomeadamente José Pedro da Silva, um dos impulsionadores do turismo na cidade de Faro, proprietário dos estabelecimentos «Aliança», café, mercearia e hotel (que depois tomos o nome de Hotel Faro). A sua neta, Maria Isabel Pacheco Soares, foi uma notável pianista e senhora de grande cultura, que muito enobreceu o Algarve. Para terminar, acrescento que os Barões da Ponte de Marxil estão sepultados, em túmulo perpétuo, no cemitério privado da Ordem do Carmo, em Faro. Também ali se encontra sepultada sua mãe, Clara Maria dos Anjos Soares, nascida a 10-1-1793, e falecida a 9-8-1877, e seu irmão, António Francisco da Silva Soares, falecido em 17-9-1889.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Efemérides algarvias de 20 de Abril


Desenho de Luís Santos, com base em gravura antiga de Faro
1749 - Ocorreram em Faro violentos distúrbios da ordem pública que culminaram com o apedrejamento e quebra das vidraças do edifício do Paço Episcopal, pronunciando-se insultos e abjectas ofensas contra o Bispo da diocese farense, Frei Ignacio de Sancta Thereza (1741-1751). A razão dos tumultos prende-se com a vida privada do antístite, cujo escândalo suscitaria o seu afastamento da diocese. No seguimento dessa polémica, e com o advento do consulado pombalino, a diocese algarvia ficaria repartida em duas (Faro e Portimão), cujos prelados, recrutados ao corpo docente da universidade de Coimbra, nunca chegariam a tomar assento episcopal. Acresce dizer que o Frei Inácio, bispo do Algarve, faleceu em Faro a 15-04-1751, encontrando-se sepultado na cripta da Sé.
Jaime Pádua Franco

Caricatura de Júlio Dantas

1938 - Morre na Praia da Rocha um dos vultos fundacionais do turismo em Portugal, Jaime de Pádua Franco (1868-1938), a quem a propaganda de Portugal no estrangeiro ficaria devendo os mais assinalados serviços. Como algarvio e grande amigo de Tomás Cabreira, deve-se-lhe o financiamento e organização do I Congresso Regional Algarvio, realizado na Praia da Rocha, em Portimão, sua terra-natal, nos primeiros dias de Setembro de 1915.

1946 – Estreia-se em Lisboa, no Teatro Nacional, a célebre peça «Antígona», da autoria o escritor algarvio Júlio Dantas, baseada na homónima de Sófocles, referência incontornável da dramaturgia clássica grega.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Elegia ao amor platónico, por uma ignorada poetisa de Tavira

Por esse Algarve em fora despertam agora do sono letárgico - quais mouras encantadas - as nossas amendoeiras em irradiantes floreiras de níveas cores. Olhando-as na berma das estradas ou nas férteis várzeas desta terra generosa, sentimos quão verdadeira é a lenda da nórdica princesa, cujo amor conjugal definhava de saudades pelos nevados campos da sua pátria.
Lembrei-me então de um poema, escrito à mais de setenta anos por uma poetisa tavirense, de enorme talento e polida ilustração, que em vida foi humildemente ignorada, e hoje permanece esquecida. 
Chamava-se Maria Amália Padinha. Certamente o meu amigo Ofir Renato Chagas saberá melhor do que eu de quem se trata, e até já lhe terá tecido os maiores elogios num dos seus livros sobre a ilustre cidade de Tavira.
Em homenagem ao seu enorme talento não resisto à tentação de aqui transcrever um dos seus poemas, uma elegia ao amor platónico - muito peculiar ao tempo em que viveu - que é também um hino à beleza naturalista e simbólica da flor da amendoeira.
Este poema, simplesmente assim titulado, foi publicado no jornal «A Ilha», nº 711, de 17-11-1945, que em S. Miguel, nos Açores, dava guarida aos jovens talentos que despontavam nos mais diversos recantos geográficos pátria de Camões.
Ouçamos então o seu belo poema, com a reverência que nos merecem os sentimentos que nele resplandecem:


Poema

Passaste junto à minha porta
e eu sorvi
o ar que respiraste...

Perto, muito perto
eu bem te vi...
Mas tão longe
- longe de mim -
quando passaste...

Olhaste indiferente
para a rua
sem reparares que ela
era diferente.
Sem notares que se abria
uma janela
e que alguém
espiava os teus passos...

O sol vinha beijar-me
à janela onde ficara
a meditar.
E deu-me aquele beijo
que em pensamento
um dia te pedira...

Foi então que me voltei
arrancada ao meu cismar...
.............
- Já te foste!...
e na escuridão amarga
tento ainda destronar
o ilusório sonho
que sonhei.

E é tão grande a minha dor,
tão grande o meu quebranto!...
E só
sem amparo,
choro...

Mas não sou eu só
que choro assim.

A minha amendoeira
num quadro todo branco
também chora comigo
odoroso pranto
em pétalas caído
sobre mim...

E essas pétalas que me cobrem
como nevado manto,
nem sei se são pétalas
se lágrimas do meu pranto!...

Tavira, 7 de Março de 1945.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A anedota dos "cangrejos" de Olhão

Não sou a pessoa certa para contar anedotas, mas não resisto à tentação de revelar esta, que ouvi em Olhão há alguns anos, porque funciona como uma anti-anedota, ou seja, não nos faz rir, mas antes reflectir sobre o carácter dos portugueses. Então aqui vai, tão fiel quanto possível ao linguajar dos "filhos d'Olhão":
Certo dia no cais de Olhão cruzaram-se dois pescadores locais, o mane Carocho e o mane Luice ("mane" é o mesmo que mano, forma carinhosa como se tratam os marítimos olhanenses).
O mane Luice (Lúcio) ia carregado com dois baldes, um em cada mão.
O mane Carocho, após lhe dar de vaia, reparou nos baldes, mas achou estranho que um deles estivesse tampado, enquanto o outro estava destapado, vendo-se claramente que trazia caranguejos.
Perante tão inusitada diferença, perguntou-lhe:
Ó mane Luice o que leva aí nos baldes?
Cangrejos móce...
Mas atão um dos baldes está tampado e o outro não, porquém?
É que no tampado levo cangrejos instrangeros, e no destapado levo cangrejos portugueses...
Mau, nã percebo... atão não tens medo que os cangrejos portugueses fujam do balde?
Eles bem tentam e até querem fugir... mas quando algum começa a subir os outros puxam-no para baixo !!! 
A moral desta anedota, é simples: os portugueses não se solidarizam uns com os outros, e, pior ainda, têm inveja daqueles que pretendendo sair da vulgaridade procuram subir na vida. Acontece que este comportamento de inveja contra aqueles que se distinguem pelos seus méritos e talentos, tem causado graves prejuízos no desenvolvimento do nosso povo, a todos os níveis e em todos os sectores da vida pública.
Acresce dizer, em remate desta anedota, que não foi por acaso que Camões terminou os Lusíadas com a palavra inveja. E, na verdade, a inveja tem sido ao longo de séculos o pecado mortal da nossa cultura, o fel em que se destila o carácter mesquinho dos portugueses. A anedota de Olhão é um retrato bem elucidativo do espírito lusíada. E por isso os olhanenses costumam dizer: a enveja mata móce...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um herói ignorado das lutas liberais no Algarve.

Faz hoje, 17 de Janeiro de 2016, precisamente 128 anos que faleceu em Silves, com 78 anos de idade, João Gregório de Figueiredo Mascarenhas, uma figura heróica e muito popular no Algarve, durante o conturbado período das Lutas Liberais.
Silves, ruínas do castelo, cerca de 1890
Nasceu a 24-06-1812 em S. Bartolomeu de Messines, e faleceu em Silves a 17-1-1889. Era filho do major José Gregório de Figueiredo Mascarenhas, um respeitado proprietário local, casado com D. Catarina Jacintha Duarte Machado Guerreiro, também originária da fidalguia fundiária, com bens de nomeada no concelho de Silves. Descendia de um casal muito respeitado na ald
eia de São Bartolomeu de Messines, uma das mais prósperas e economicamente das mais poderosas do termo de Silves.
João Gregório Figueiredo Mascarenhas desde jovem que se tornou famoso pela sua destreza na caça, batendo toda a serra algarvia, desde as cordilheiras do Espinhaço de Cão e Monchique e até quase ao cume do Caldeirão. Nas suas batidas de caça por essas serranias agrestes do Algarve e Alentejo, era certo e sabido que voltava a casa com um carro de javalis, lebres, coelhos e corças. Conhecia os recônditos mais escabrosos da serra algarvia, e como ele não havia outro que se igualasse no manejo das armas de fogo.
Desenho de Silves, com a rua do castelo no séc. XIX
O conhecimento da serra e a destreza nas armas foram decisivos quando em 1833, incorporado no batalhão móvel de Lagos, seguia em expedição ao Alentejo para combater as guerrilhas miguelistas que assolavam as aldeias, montes e casais desde São Marcos até Ourique. No sítio do Valle da Mata, as guerrilhas montaram uma cilada com tal sucesso que conseguiram aprisionar o coronel Custódio Pires Bandeira, assim como todos os soldados que seguiam na frente do batalhão móvel de Lagos. Felizmente o João Figueiredo Mascarenhas seguia nesse momento na retaguarda e por isso conseguiu escapar juntamente com alguns camaradas de armas, que seguindo-lhe os passos lograram alcançar o sítio da Amorosa, onde se fizeram fortes, conseguindo rechaçar as guerrilhas que seguiam na sua peugada. Conhecedor do terreno conseguiu conduzir os seus homens pelos caminhos acidentados da serra algarvia, escapando incólumes à sanha impiedosa das guerrilhas, até chegar à cidade de Silves. Mas não se sentindo seguro rumou para Vila Nova de Portimão, onde dias depois teve de enfrentar o grosso das forças miguelistas. O ataque a Portimão foi uma das páginas mais heróicas das lutas civis no Algarve. As forças liberais, mal equipadas e em menor número do que as guerrilhas do Remechido, quase soçobraram ao cerco miguelista, não fosse, entre outros o heroísmo de João Gregório Figueiredo Mascarenhas, que numa posição arriscada conseguiu suster as investidas das forças inimigas. Porém, num dos ataques as guerrilhas vararam impiedosamente a sua posição de resistência, ferindo-o gravemente. O jovem Figueiredo Mascarenhas foi recolhido ao hospital onde recuperou a vida, mas não a capacidade para voltar ao efectivo, encontrando-se em convalescença quando foi assinada a Convenção de Evoramonte.
Panorâmica da cidade de Silves nos inícios do séc.XX
Após a guerra-civil retirou-se para a sua aldeia natal, onde se casou com D. Maria Mascarenhas Neto de Figueiredo, de quem teve dois filhos: Maria Elisa de Figueiredo Mascarenhas e José Gregório de Figueiredo Mascarenhas. Reassumindo os negócios e interesses de família, teve uma vida próspera, mantendo sempre a sua lhaneza de trato sem perder a postura fidalga nem os seus ideais de tolerância e de liberalidade. Repartiu a vida e os negócios entre a aldeia de Messines e a cidade de Silves, onde o seu heroísmo durante as lutas liberais seria sempre lembrado para exemplo das gerações futuras. O principal beneficiado do seu prestígio popular seria o filho, José Gregório de Figueiredo Mascarenhas, que viria a ser também um militar e político de grande notoriedade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Augusto César Pires Soromenho, um escritor e militar algarvio hoje ignorado

Militar e escritor, nasceu em Vila Nova de Cacela a 5-5-1857 e faleceu na Quinta da Penha Longa em Sintra, onde se encontrava a veranear, a 10-8-1948, com 91 anos de idade.
Frequentou a Escola do Exército, onde concluiu em 1879 o curso da sua especialidade, na arma de infantaria, sendo sempre considerado como um dos melhores alunos. Abraçando a carreira militar fez a sua progressão de forma paulatina, mas sempre legal e justificada, mediante exame e concurso público. Assim ascendeu a alferes em 7-1-1880, depois a tenente em 18-2-1885, a capitão em 25-5-1894, a major em 16-5-1905, a tenente-coronel em 25-11-1909, e por fim a coronel em 9-12-1911. Para fazer o seu percurso ascensional na arma de infantaria aceitou vários destacamentos para prestar serviço em diferentes unidades e cumpriu diversas comissões exercidas fora da metrópole e do continente, durante as quais provou a sua bravura, a sua inteligência e os seus elevados conhecimentos de estratégia militar. A forma meritória como desempenhou as missões que lhe foram confiadas granjearam-lhe enorme prestígio e sucessivas promoções até atingir o posto de coronel, no qual se reformou em 5-6-1915.
No exercício da sua carreira militar, comandou sucessivamente os regimentos de Infantaria 13, 14 e 25, e interinamente a 4.ª Divisão Militar no ano de 1915, não tendo sido mobilizado para a Flandres por causa da sua avançada idade. Possuía diversas e prestigiadas condecorações, para além de numerosos louvores militares.
Dotado de sólida cultura dedicou-se ao longo da vida aos estudos militares, publicando as seguintes obras: Elucidário dos Comandantes dos Destacamentos e Diligências, Lisboa, 1895; um Manual de Justiça Militar (Lisboa, 1904), para uso castrense; e sobre o nosso glorioso passado histórico, publicou para uso nos liceus uma curiosa História dos Antigos Povos Orientais (Lisboa, 1900) que teve larga divulgação.
Era casado com D. Maria da Encarnação Soromenho e foi pai do Dr. Luís Soromenho, médico distinto, e do tenente Augusto Soromenho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Diogo Tavares de Mello Leote, ministro da Justiça do 1º Governo Constitucional da República Portuguesa


Diogo Tavares de Mello Leote,  nasceu na vila de Albufeira a 7 de Janeiro de 1849, filho de Diogo Maria de Mello Leote e de D. Maria Emília Faria, oriundos das mais prestigiadas famílias da burguesia algarvia.
O Dr. Diogo Tavares de Mello Leote, apesar de ser hoje uma figura ignorada na cultura algarvia, foi no passado século XIX-XX uma personalidade de relevo no galarim dos notáveis do Algarve.
Licenciou-se cum laude em Direito pela Universidade de Coimbra, optando pela carreira da magistratura, ao longo da qual percorreu um vasto périplo, primeiro como delegado do Ministério Público e depois como juiz de Direito nos tribunais administrativos das cidades da Horta e de Faro, onde fez amigos e foi muito acarinhado. No Algarve exerceu também a magistratura nas comarcas de Lagos, Olhão e Tavira, passando depois por Porto de Mós, Valpaços, Portalegre, Évora e Porto. Na cidade invicta ascendeu de forma gradual até se tornar num dos mais prestigiados Desembargadores do Tribunal da Relação do Porto, cujo prestígio e acção política justificaria em 1911 a sua nomeação para o alto cargo de Ministro da Justiça, no primeiro governo constitucional da República, presidido pelo Dr. João Chagas.
O dr. João Chagas, chefe do 1º governo constitucional, num
 momento de leitura e de lazer no seu gabinete ministerial
O ministro da Justiça, Dr. Diogo Leote, era de entre o corpo ministerial o único que não tinha ligações partidárias nem passado político que justificasse a sua nomeação para o governo, que como se sabe teve a duração da “rosa de Malherbe”. Em todo o caso, o ministro Leote sabedor das directrizes definidas pelo Governo Provisório em matéria de cultos religiosos, permitiu e assegurou a entrada em funcionamento da Tutoria da Infância de Lisboa, a criação do Tribunal das Trinas, onde se dirimiram os crimes contra a República, e, por fim, aprovou os serviços de mensuração antropométrica dos detidos nas cadeias de Coimbra. Para além disso, dedicou o seu tempo à gestão corrente do ministério, ou seja, a garantir o bom funcionamento dos serviços correntes da justiça e da segurança pública.
Devo acrescentar que este governo, o primeiro com legitimidade constitucional, teve origem no bloco de almeidistas e de camachistas que elegeu o Dr. Manuel de Arriaga para a presidência da República, em oposição aos afonsistas. Por isso foi de curta duração, aliás à semelhança da maioria dos que se constituíram na I República, vigorando apenas entre 4 de Setembro e 12 de Novembro de 1911, ou seja setenta dias. O carácter efémero da governação tornou-se na face negra do regime republicano por causa do seu sectarismo partidário, que acicatou interesses e posições ideológicas inconciliáveis. A instabilidade governativa tornou-se no sinónimo político da República.
Postal ilustrado, propaganda da República e da bandeira
nacional, com o elenco do 1º governo constitucional.
A propósito das ideias políticas do Dr. Diogo Leote, convém dizer que não foram isentas de polémica, e muito menos lineares com uma linha de rumo previsível e coerente. O facto de se recusar a servir interesses, quer económicos quer políticos, e de procurar ser isento e parcial, tal como o era na magistratura, tornava-o incompatível com a política. Em boa verdade, não foi homem de grandes convicções políticas nem de fidelidades partidárias. Sabia-se que era da esquerda monárquica, simpatizante do partido progressista, mas com o advento da República aderiu ao novo regime, sendo por isso etiquetado de adesivista. Em 1912, já depois de ter sido ministro, aderiu à União Republicana a convite do fundador e seu amigo, Dr. Brito Camacho, passando a militar nas fileiras unionistas, mas recusando-se a voltar às cadeiras do poder. O facto de ter vivido na cidade do Porto, e de ter conhecido a grandeza de alma daquele povo, contribuiu largamente para a sua nobreza de carácter, espírito de sacrifício e inquebrantável dedicação ao trabalho.
Ao longo da vida escreveu muito para os jornais e revistas relacionadas com a vida do foro, sendo particularmente assídua nas colunas da «Revista dos Tribunais», da qual saíram em separata alguns trabalhos da sua lavra. Da sua obra literária constam apenas dois títulos: «Baldio» e «O Pão». Mercê da sua carreira como homem do foro e da justiça, foi eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, o que muito o enobrecia, já que se trata de uma honraria com que se distinguem apenas os mais ilustres portugueses.
Importa, para finalizar, dizer ainda que o Dr. Diogo Tavares de Mello Leote, foi casado com D.ª Maria Lúcia Pais d'Ayet, de quem teve um único filho, Diogo d'Ayet Leote, também ele uma figura respeitável na sociedade do seu tempo.
O seu Algarve e a sua humilde vila natal de Albufeira, tornaram-se numa miragem a que jamais regressaria. Faleceu na cidade do Porto a 8 de Março de 1920.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Canellas, Ignez Carolina

Natural de Faro, que em idade avançada foi viver para Lisboa, onde viria a falecer a 28 de Dezembro de 1903, com provecta idade. Foi uma mulher bonita das mais admiradas da cidade, frequentadora dos palcos sociais mais selectos e requintados, mas também dos palcos da arte de Thalma, como o Lethes e o 1º de Dezembro, neles conhecendo António Vicente Canellas, um notável artista de comédia, que nunca se deixou seduzir pelo profissionalismo, para não deixar o lar materno. Apaixonaram-se, casaram por amor, e tiveram dois filhos, um casal. Criaram-se aqui, mas a vida e os negócios levaram a família para fora do Algarve, sem nunca deixarem de ser cidadãos de conceituada honradez moral e social.
Panorâmica do interior do Teatro Lethes
Para quem não sabe, o actor Canellas, como era conhecido, teve noites de retumbante sucesso nos teatros do Algarve e Alentejo, representando papéis cómicos de grande exigência artística. Nos anos sessenta do século dezanove, o teatro Lethes de Faro gozava de fama nacional. Dizia-se que a família Cúmano, proprietária do imóvel e da companhia teatral, gastara centenas de contos para manter um “foyer” de grande nível e um guarda-roupa muito superior, dizia-se, ao do teatro D.Maria. Muitos dos seus actores, músicos e cantores de ópera, seguiram as suas carreiras nos teatros da capital, alguns deles com estrondoso êxito, como a Dores Aço (natural de Silves, casada com o actor José Ricardo), a sua irmã Teresa Aço (que foi casada com o actor-empresário Afonso Taveira), e tantos outros. Quando a companhia do Lethes ostentava nos seus programas o nome do actor Canellas, era garantia de casa cheia. Vinha gente de todo o lado para vê-lo representar papéis jocosos que só ele sabia fazer. Ouvir os seus hilariantes monólogos de um acto era lavar a alma de riso e boa disposição.
Alegoria à musica, 
pintura no tecto do teatro
Era mãe do conceituado Alfredo Canellas, farense de coração que se apaixonara pela África, onde chegou aos corpos gerentes da Companhia do Nyassa, uma das mais ricas e poderosas do nosso império colonial. Teve também uma filha, entretanto falecida, que foi casada com o Dr. Vianna de Lemos, outra grande figura do seu tempo, director da famosa Companhia de Papel do Prado.
O féretro de Ignez Carolina Canellas ficou no cemitério dos Prazeres, depositado no jazigo de Augusto César Fernandes, amigo íntimo do filho, não mais regressando ao seu Algarve natal. Os seus descendentes são hoje pessoas de bem, com vida feita na capital, que talvez não saibam quão notável foi a vida dos seus ascendentes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

«A Ministrada» Lacobrigense

Encontrei há anos na Biblioteca Nacional de Lisboa um interessante códice manuscrito sobre um episódio político ocorrido na cidade de Lagos em 1784. A época em que decorre a trama narrativa prendeu-me imediatamente a atenção, pois decorre no período historicamente designado por «Viradeira», isto é, nos anos subsequentes ao consulado pombalino. Está escrito em verso, repartido em cantos, como se tratasse de Os Lusíadas, em versão reduzida, num estilo crítico-jocoso. Ignoro o seu autor, porque nada consta que o identifique, o que me faz pressupor tratar-se de uma obra clandestina que nunca deve ter visto a luz do prelo.
Desse raro e valioso códice extratei um breve apontamento, no qual anotei os dizeres do rosto:
Brasão antigo de Lagos atribuído por D. Manuel em 1504
A
 MINISTRADA 
Poêma
 critico
dado á luz
Por hum amador da tranquilidade Lacobri- 
gence. Anno
MDCCLXXXIV. (1)

Trata-se de um longo poema épico repartido por seis cantos e dividido em estrofes, narrando certos acontecimentos populares, marcados por gestos de rebeldia e atitudes de amotinação colectiva, que aglutinaram a maioria dos habitantes de Lagos. A contestação popular dirigia-se principalmente contra um vereador e o Juiz de Fóra da cidade, que desempenhavam os seus cargos de forma despótica com violência e arbitrariedade. Todos os factos e personagens nele descritos são identificados e classificados em dezenas de notas que figuram no término de cada Canto. Em boa verdade, não é apenas uma obra poética que ficou inédita por razões políticas, mas antes um verdadeiro documento histórico, embora de cariz literário, urdido no género mais caro à tradição nacional e ao gosto popular. Sendo as estrofes escritas com objectivos políticos, ainda que em tom crítico-jocoso, este códice torna-se numa fonte de informação notável para a história regional, particularmente para a história da cidade de Lagos, acrescendo com isso a necessidade de o publicar.
Este códice manuscrito abre com a seguinte "Introdução", uma espécie de nota explicativa, que passo a transcrever: 
«Os tumultos de Lagos originados das paixões de alguns Ministros, como pela ellevação da Caza do Vereador Bento de Azevedo, tem sido objecto de rizo para huns, e de trabalho para outros; mas de lastima para todos aquelles bons, e sinceros animos que se interessão no publico socego. A ultima dezordem que occazionou, e deu logar a este pequeno Poêma, em que mais se observão as leis da Verdade do que as Regras da Arte, se lhe fez de alguma utilidade, dando a conhecer os males e dezordens, a que nos conduz a discordia, e a ambição, e preencherá o fim do seu Author, unico e singular, que se propoz em ordenálo; e se alguém duvidar da variedade dos factos que nelle se apontão, o Author não tem duvida em apprezentar provas autenticas de todos elles, em qualquer Archivo, ou livraria publica da Corte.»
Confesso que não consegui identificar o autor deste poema crítico-jocoso, muito embora presuma que se trate de um adversário político, talvez um antigo membro das anteriores vereações, cujo espírito progressista e burguês, certamente favorável ao reformismo pombalino, se opunha à mentalidade do monarquismo absolutista que com D. Maria I retornara ao poder, abjurando e derruindo a maioria das conquistas sociais alcançadas durante a administração josefina. 
Não obstante o manuscrito se apresentar anónimo - como aliás convinha ao seu carácter clandestino e aos seus objectivos subversivos - encontrei no final da "Introdução" que acima se transcreve uma assinatura de um único nome: Valle. Fiquei, porém, na dúvida se seria a identificação do autor ou do copista, já que desta «Ministrada» circularam vários exemplares manuscritos.
Seja como for, uma coisa é certa, este códice necessita de ser estudado e analisado por um historiador especializado no conhecimento da época, que prepare a sua publicação numa edição que elucide os leitores de todas as dúvidas que a sua leitura possa suscitar. As notas aduzidas no fim de cada Canto, são muito úteis e importantes para a identificação dos intervenientes na acção política, e sobretudo na contestação social descritas no poema, mas pareceram-me por vezes dúbias, algo veladas e pouco esclarecedoras para a compreensão da diegética histórico-literária. Só um especialista na matéria é que poderá dissipar todas as dúvidas, e até talvez identificar o seu autor.
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(1) Biblioteca Nacional de Lisboa, reservados, códice nº 6058.